Camundongos fazem manobras associadas a primeiros socorros, sugerem estudos
Isso é o que dois estudos independentes publicados no último dia 21 na revista científica Science, uma das mais importantes do mundo, dizem. Segundo os pesquisadores, áreas específicas cerebrais dos roedores apresentaram maior atividade durante o comportamento de reanimaçã
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© iStock (Foto ilustrativa)
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Lifestyle Ratinhos
(FOLHAPRESS) - Camundongos percebem quando um parceiro de gaiola está em perigo e são capazes de fazer uma série de manobras associadas a primeiros socorros para tentar socorrer o outro.
Isso é o que dois estudos independentes publicados no último dia 21 na revista científica Science, uma das mais importantes do mundo, dizem. Segundo os pesquisadores, áreas específicas cerebrais dos roedores apresentaram maior atividade durante o comportamento de reanimação.
A ativação dessas áreas não foi verificada nem quando os dois animais estavam ativos, nem quando o outro parceiro estava dormindo, sugerindo que foram ativadas após a verificação de inconsciência do parceiro.
Um camundongo socorrista morde a boca e a língua de um parceiro inconsciente, puxando a língua para fora da boca e ampliando as vias aéreas do animal, comportamento classificado como uma reanimação Sun et al./Science/Universidade do Sul da Califórnia A imagem mostra dois ratos em um ambiente controlado. As descobertas renderam, ainda, uma publicação de perspectiva na mesma edição do periódico, seção destinada a comentários de autores não envolvidos no estudo original. A nota foi assinada por William Sheeran e Zoe Donaldson, do departamento de Biologia Celular, Molecular e do Desenvolvimento e do departamento de Psicologia e Neurociência, respectivamente, da Universidade de Colorado em Boulder, Estados Unidos.
No primeiro artigo, liderado por Huizhong Tao e Li Zhang, do Instituto Zilkha de Neurogenética e do departamento de Fisiologia e Neurociência, ambos da Universidade do Sul da Califórnia, os cientistas dispuseram dois camundongos companheiros de gaiola já familiarizados e anestesiaram um deles. Eles filmaram a reação do parceiro e verificaram uma sequência de ações, incluindo aproximação do animal pelo outro, farejamento, limpeza dos pelos ("grooming") e mordidas na região oral, incluindo "puxar a língua" do parceiro inconsciente –interpretado como forma de desobstrução das vias orais para ajudar o outro a retomar a consciência.
Como o anestésico aplicado era de curta duração, assim que o animal inconsciente recobrou a atenção o "socorrista" deixou de prestar ajuda e se afastou do parceiro.
Os cientistas então colocaram detectores elétricos para avaliar a atividade cerebral dos roedores durante a reanimação, além de medirem os níveis de hormônios e neurotransmissores liberados por diferentes neurônios, e verificaram maior atividade no núcleo paraventricular hipotalâmico com a liberação de ocitocina, hormônio frequente associado à empatia e ao cuidado nos mamíferos.
Segundo os pesquisadores, esse experimento pode revelar mecanismos dos circuitos cerebrais relacionados à empatia em grupos antes desconhecidos, como nos roedores. "Em nossos experimentos, o camundongo fazia mais do que se aproximar do parceiro, apresentando várias ações que ajudam a despertar o animal receptor. Interpretamos esses comportamentos como semelhantes à reanimação", explica Tao.
O mesmo padrão foi detectado, por exemplo, quando os camundongos são apresentados a um animal que acabou de morrer, sugerindo que é a falta de resposta do parceiro que desencadeia a ação.
"É desafiador determinar a verdadeira intenção dos animais por trás de comportamentos. Por meio das consequências [recuperação e afastamento], sabemos que o receptor é ajudado a se recuperar do estado anestesiado [inconsciente], mas não excluímos a possibilidade de que o animal seja impulsionado por instintos quando reconhece o estado inconsciente do parceiro, sem uma verdadeira intenção de reanimá-lo", afirmam os autores.
De acordo com Tao, o comportamento de reanimação foi mais associado a fêmeas, indicando que há uma diferença no nível de ocitocina liberado, especialmente quando os animais não têm familiaridade entre si. "Nossos resultados sugerem que, em humanos, as mulheres podem exibir níveis mais altos de comportamento empático em comparação a homens quando veem um desconhecido com sinais de perigo, mas isso ainda precisa ser estudado sistematicamente."
Já no outro artigo publicado na mesma edição da Science, liderado por Emily Wu e Weizhe Hong, da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), os pesquisadores descobriram um papel da amígdala medial na regulação da resposta de primeiros socorros.
No experimento, também foram dispostos ratos em gaiolas de diferentes idades e sexos, sendo que um foi sedado com dexmedetomidina, sedativo comumente usado em pacientes em unidades de terapia intensiva que necessitam de ventilação mecânica. Eles verificaram uma aproximação maior e comportamento de "grooming" nos animais direcionado com maior frequência à região da cabeça, indicando uma intenção de reanimar o parceiro.
O comportamento de cuidado era suprimido quando genes ligados à liberação de um neurotransmissor (ácido gama-aminobutírico) na amígdala medial eram silenciados. O ácido tinha sua secreção aumentada quando a área era estimulada, sugerindo que a amígdala medial pode fazer parte do circuito neural que regula a diferenciação entre os dois estados, de aproximação e de não prestar ajuda.
"Essas descobertas lançam luz sobre os mecanismos neurais subjacentes a comportamentos tipicamente sociais em relação a indivíduos inconscientes, ampliando nossa compreensão da capacidade dos animais de detectar e reagir a diferentes condições adversas de outros", escrevem os autores.
No caso da pesquisa da Universidade do Sul da Califórnia, Tao e colegas afirmam que pretendem examinar se tais comportamentos estão presentes em outras espécies animais e investigar mais a fundo quais regiões do cérebro, incluindo aquelas que têm receptores de ocitocina, estão envolvidas na mediação desses comportamentos.
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